Café Filosófico - Textos

Já não se fazem Pica-Paus como antigamente!

Em 1.840, em Milão, Francesco Villa publicou a obra "La Contabilitá" pela editora Monti, dando inicio então à contabilidade moderna, como é vista hoje, ou pelo menos deveria ser vista.

Os primórdios da contabilidade já existiam desde o século XIII.

No final do século XV Frei Luca Paciolli, OFM, com a publicação do "Tratactus de Computis et Scripturis" sistematizou todo o conhecimento até então sobre a contabilidade, principalmente o conceito da partida dobrada ou para cada débito deve existir um crédito e vice versa quando então essa ciência passou a ser de domínio público. Os dois parágrafos acima foram reescritos em 12/04/2006 graças à intervenção do Sr. João da aguaboa.com.br

Em 1.970 o Sr. Oswaldo dos Santos chamou-me ao lado de sua mesa e ofereceu-me uma cadeira para assentar-me.

- "José, continuou o Sr. Oswaldo, isto em minhas mãos é uma ficha tríplice. Porque ficha tríplice? Porque ela é composta de três vias, carbonadas. A primeira é impressa com uma tinta especial que permite ser copiada no Diário Geral da empresa. Na segunda via, cor de rosa, aparece a conta a ser debitada. Na terceira via, cor amarela, aparece a conta a ser creditada.

Naquele momento comecei a aprender Ciências Contábeis.

Ao final da década de 60 começou a modernização das empresas brasileiras. Com aquela modernização apareceram as empresas de auditoria externa. As mais famosas eram de origem americana.

A hierarquia das empresas de auditoria era assim:

- Assistentes em 4 níveis.

- Analistas em 4 níveis.

- Gerentes em 4 níveis e por fim o

- Sócio.

Importante ressaltar que o Sócio, necessariamente, no passado foi um Assistente.

Os Assistentes após a contratação eram internados em hotéis no interior do Brasil para cursos de Ciências Contábeis e Auditoria e levemente uma lavagem cerebral. De lá saiam para seus primeiros trabalhos de auditoria com o singelo apelido de Pica-Pau e todos os adereços que o apelido carrega de brinde.

Ao final do primeiro ano o Assistente nível um que não passasse para nível três caberia a oportunidade de pedir demissão ou ser considerado um individuo de segunda categoria, se é que essa categoria existe.

O Pica-Pau literalmente, pegava no pé de todo mundo com suas irascíveis perguntas, seu ar de superioridade, sua camisa branca, impecável, sua gravata, nem tanto e seus ridículos sapatos ao estilo "Vulcabrás" americano, atrás de possíveis erros no emaranhado de lançamentos contábeis.

Em conversas de fim de tarde com funcionários menos categorizados, secretárias, das empresas auditadas, os auditores descobriam fatos que mudavam os rumos dos pareceres de auditoria. Como se sabe o parecer da auditoria é um atestado, após vários exames, que a saúde da empresa está bem ou mal. Comparando, é a visita que se faz ao médico após uma bateria de testes e o médico nos diz se estamos bem ou se devemos tomar algum cuidado extra ou alguma providência mais urgente.

Com o passar do tempo aconteceu a reengenharia das Ciências Contábeis com o advento da Entrada Única e outros nomes possíveis. É bom relembrar que ao final da década de 80 os neoliberais já diziam que os custos de uma estrutura de Contabilidade não traziam os benefícios esperados. Naquela época começaram também a terceirização destes serviços. Afinal poucos patrões entendiam o motivo da existência da Contabilidade.

Numa pesquisa realizada num curso de Contabilidade para Gerentes na Faculdade de Economia e Administração da USP, quando fui novamente aluno, o apontamento de que a Contabilidade existia para atender o Fisco foi de quase 100%, quando então Frei Luca Paciolli revirou-se em seu túmulo.

Nos dias de hoje é difícil encontrar no universo das pessoas que trabalham em Contabilidade alguma que conheça todos os meandros das contas a serem debitadas e creditadas considerando os milhares de eventos econômico-financeiros que acontecem a cada segundo nas grandes empresas. Algumas cuidam dos débitos, outras dos créditos. Algumas do Diário Geral, outras do Diário de Contas a Pagar, outras do Diário de Custos de Projetos e assim por diante.

Os analistas de balanços entrados no mercado depois da reengenharia das Ciências Contábeis enxergam apenas os índices de liquidez, endividamento, e aquela série de outros, encontrados nos livros de análise econômica, não notam no entanto que muitas empresas guardam todo o patrimônio líquido na gaveta da tesouraria; que o Contas a Receber é quase todo irrealizável.

G. Nazareno M. um Sócio daquela famosa empresa de auditoria talvez tenha pedido sua crucificação ao saber do caso daquela empresa energética que eletrocutou milhares de bem intencionados investidores em todo o mundo.

G. Nazareno M. quando chegava ao final de cada trabalho, de posse do Balanço, sabatinava os Contadores e os Gerentes Financeiros das empresas a respeito da maturidade do Contas a Receber. Ao final ele decretava, Parecer sem ressalva ou Parecer com ressalva.

São poucos hoje, Contadores como o Sr. Oswaldo dos Santos, como são poucos os Pica-Paus da década de 70.

Em conseqüência não podemos esperar Sócios de empresas de auditoria que escrevam pareceres que não dêem choques, porque as cargas elétricas dos débitos e créditos não estão devidamente isoladas conforme padrões normalmente aceitos...

Noticia do dia 21/05/02 no portal http://www.bbc.co.uk/portuguese/economia/020521_merrillae.shtml

Merrill Lynch vai pagar multa de US$ 100 milhões.

O banco de investimentos americano Merrill Lynch concordou em pagar uma multa de US$ 100 milhões (cerca de R$ 255 milhões), por não ter aconselhado seus clientes da melhor maneira possível em algumas ocasiões.

O Merrill Lynch foi acusado de recomendar a compra de certas ações aos investidores enquanto, internamente, tratava-as como "mau negócio".

O promotor-geral de Nova York, Eliot Spitzer, disse que e-mails trocados entre funcionários do banco classificavam as ações como "porcarias", enquanto elas eram promovidas publicamente pelo Merrill Lynch.

O banco, que não admite ter feito nada errado, vai pagar US$ 48 milhões ao Estado de Nova York e US$ 52 milhões para outros Estados americanos.

JTTFilho